O Eneagrama na Liderança Inspiradora

Antes de desenvolver equipes, o líder precisa desenvolver consciência sobre si mesmo.
“Conhece-te a ti mesmo.”

Há mais de dois mil anos, Sócrates já apontava um princípio que continua extremamente atual.

Na liderança, essa talvez seja uma das competências mais importantes.

Vivemos uma época em que falamos constantemente sobre inteligência artificial, transformação digital, indicadores, produtividade e inovação. Tudo isso é indispensável.

Mas existe uma competência que continua sendo exclusivamente humana:

a capacidade de compreender a si mesmo.

Ao longo de quase quarenta anos como psicóloga, professora, mentora e consultora de líderes, aprendi que existe uma diferença muito clara entre gestores que apenas ocupam cargos de liderança e aqueles que verdadeiramente inspiram pessoas.

Os melhores líderes não são necessariamente os mais inteligentes.

Nem os mais experientes.

Nem aqueles que dominam mais ferramentas de gestão.

São aqueles que compreendem seus próprios padrões de comportamento e conseguem utilizá-los conscientemente a favor das pessoas e dos resultados.

É exatamente por isso que utilizo o Eneagrama em diversos programas de desenvolvimento de liderança.

Não como um rótulo.

Mas como um ponto de partida para o autoconhecimento.

Muito além de descobrir um perfil
Uma das perguntas que mais escuto em sala de aula é:

“Qual é o melhor tipo de Eneagrama para um líder?”

Minha resposta é sempre a mesma.

Não existe um melhor tipo.

Existem líderes mais conscientes.

Nenhum perfil é superior ao outro.

Cada tipo possui talentos extraordinários e desafios igualmente importantes.

O diferencial não está no tipo predominante.

Está na forma como diferentes características convivem dentro da mesma pessoa.

Uma analogia que gosto de fazer
Imagine uma orquestra.

Não existe instrumento melhor.

O violino não substitui o piano.

O piano não substitui o violoncelo.

O trompete também possui sua importância.

Separadamente, cada instrumento produz um som.

Juntos, produzem uma sinfonia.

O Eneagrama funciona da mesma forma.

Cada tipo representa um recurso diferente.

Quanto maior o equilíbrio entre essas características, maior tende a ser a capacidade do líder de adaptar sua atuação às diferentes situações.

Os nove tipos do Eneagrama
Tipo 1 – Perfeccionista
Busca excelência, organização, responsabilidade e qualidade. Costuma elevar o padrão das entregas e valoriza fazer o que considera correto. Seu desafio é evitar o excesso de cobrança consigo mesmo e com os outros.

Tipo 2 – Ajudante
Tem facilidade para acolher pessoas, construir relacionamentos e oferecer apoio. Favorece ambientes colaborativos e humanizados. Precisa cuidar para não colocar constantemente as necessidades dos outros acima das próprias.

Tipo 3 – Vencedor
É orientado para resultados, desempenho e realização. Inspira pela capacidade de executar e transformar objetivos em entregas concretas. Seu desafio é equilibrar produtividade com presença genuína nas relações.

Tipo 4 – Intenso
Valoriza autenticidade, criatividade e profundidade emocional. Costuma perceber nuances que muitas pessoas não enxergam e contribui com inovação e sensibilidade. Em excesso, pode concentrar-se demasiadamente nas emoções.

Tipo 5 – Analítico
Procura compreender profundamente antes de agir. Valoriza conhecimento, estratégia e decisões fundamentadas em informações. Costuma ser excelente solucionador de problemas complexos.

Tipo 6 – Precavido
Planeja, avalia riscos e busca segurança antes de tomar decisões importantes. Contribui para processos mais consistentes e preparados para enfrentar imprevistos. Seu desafio é não permanecer tempo demais apenas analisando possibilidades.

Tipo 7 – Otimista
Leva entusiasmo, criatividade e energia para os projetos. Enxerga oportunidades e incentiva inovação. Precisa cuidar para manter foco e concluir aquilo que inicia.

Tipo 8 – Poderoso
Assume responsabilidades com coragem e firmeza. Tem facilidade para decidir e liderar em momentos difíceis. Seu desafio é equilibrar assertividade com escuta.

Tipo 9 – Mediador
Promove diálogo, cooperação e harmonia entre pessoas diferentes. Favorece ambientes saudáveis e relações de confiança. Precisa evitar que a busca pela paz impeça conversas difíceis quando elas são necessárias.

Como interpreto o Eneagrama nos meus treinamentos
Ao longo dos anos, desenvolvi uma forma própria de utilizar o Eneagrama em programas de desenvolvimento de líderes.

A atividade é construída a partir de uma metodologia ativa de aprendizagem, em que cada participante vivencia primeiro o processo de autoconhecimento para, depois, refletir sobre seus resultados.

Essa experiência transforma o aluno em protagonista da própria descoberta.

Na devolutiva, não realizo uma leitura baseada apenas no tipo predominante.

Meu foco está na interação entre os três indicadores mais expressivos, pois acredito que é essa combinação que revela, de forma mais completa, como cada líder tende a comunicar, decidir, negociar, lidar com conflitos e influenciar pessoas.

Depois, observo também os indicadores menos expressivos.

Não porque sejam “ruins”.

Mas porque podem revelar competências que precisam ser desenvolvidas conforme o momento profissional, o cargo exercido ou os desafios da organização.

O equilíbrio faz diferença
Na minha experiência, é muito comum encontrar líderes com forte predominância em perfis como Perfeccionista, Vencedor, Analítico ou Poderoso.

São profissionais extremamente comprometidos com qualidade, desempenho, estratégia e resultados.

Essas características são valiosas.

Mas percebo que, quando esses perfis aparecem acompanhados por características como Ajudante, Otimista ou Mediador, a liderança tende a tornar-se ainda mais completa.

O foco permanece nos resultados.

Mas a escuta melhora.

A empatia cresce.

Os relacionamentos tornam-se mais fortes.

A equipe sente-se mais segura para contribuir.

Da mesma forma, líderes naturalmente acolhedores podem beneficiar-se do desenvolvimento de competências relacionadas à tomada de decisão, planejamento, assertividade e orientação para resultados.

Por isso costumo dizer:

Não buscamos mudar a personalidade de ninguém.

Buscamos ampliar o repertório de liderança.

Um caso que marcou minha atuação
Em um treinamento executivo, um líder apresentou pontuações elevadas nos perfis Vencedor, Perfeccionista e Analítico.

Era extremamente competente.

Cumpria metas.

Organizava processos.

Tomava decisões baseadas em dados.

No entanto, durante as discussões em grupo, surgiu uma percepção interessante.

Sua equipe o admirava profundamente pela competência técnica, mas evitava procurá-lo quando precisava conversar sobre dificuldades.

Ao analisarmos o conjunto do perfil, percebemos que seus indicadores relacionados à mediação e ao acolhimento apareciam menos desenvolvidos.

Nos meses seguintes, ele passou a trabalhar intencionalmente habilidades como escuta ativa, feedback construtivo e comunicação empática.

As metas permaneceram altas.

Mas algo mudou.

A confiança da equipe aumentou.

Os conflitos diminuíram.

As pessoas passaram a participar mais das decisões.

Foi então que ele fez um comentário que nunca esqueci:

“Descobri que eu não precisava deixar de ser exigente. Precisava aprender a ser exigente sem deixar de ser humano.”

O verdadeiro objetivo do autoconhecimento
Nenhuma ferramenta consegue explicar completamente um ser humano.

O Eneagrama também não.

Ele não substitui avaliações psicológicas nem deve ser utilizado isoladamente para decisões organizacionais.

Mas, quando utilizado com responsabilidade, experiência e propósito, torna-se uma poderosa ferramenta para ampliar a consciência sobre nossos padrões de comportamento.

E consciência produz escolhas.

Escolhas constroem comportamentos.

Comportamentos moldam culturas.

E culturas transformam organizações.

Por isso acredito que toda liderança inspiradora começa exatamente no mesmo lugar:

dentro do próprio líder.

☕ Para refletir:
Depois de conhecer seu perfil, faça duas perguntas a si mesmo:

Quais características fortalecem naturalmente minha liderança?

E quais competências preciso desenvolver para liderar pessoas cada vez mais diferentes de mim?

Talvez essas respostas sejam muito mais importantes do que descobrir apenas um tipo de personalidade.

por Dra. Nazareth Ribeiro PhD. CEO da APTA Liderança e Saúde Mental Corporativa Psicóloga; Especialista em Gestão de Carreira e Gestão de Equipes; CEO da Apta Psicologia e Neurofeedback ; Certificada em Relatórios de Sustentabilidade GRI pela COPPEAD UFRJ e Profa. nos MBAs e nos Cursos de Formação Executiva da Fundação Getulio Vargas FGV Educação Executiva ; Doutorado em Negociação e Administração de Conflitos com foco em Liderança.

Referências
BASS, B. M.; AVOLIO, B. J. Improving Organizational Effectiveness Through Transformational Leadership. Sage Publications.

BURNS, J. M. Leadership. Harper & Row.

CHESTNUT, Beatrice. The Complete Enneagram. She Writes Press.

DANIELS, David; PRICE, Virginia. The Essential Enneagram. HarperOne.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional. Objetiva.

PALMER, Helen. The Enneagram. HarperOne.

RISO, Don Richard; HUDSON, Russ. Personality Types: Using the Enneagram for Self-Discovery. Houghton Mifflin.

SENGE, Peter. A Quinta Disciplina. BestSeller.

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