Tomar ou não tomar a medicação?

No dia a dia do tratamento a TDAHs em meu consultório, tenho me deparado com uma constante dúvida por parte dos pais de clientes e de adultos portadores deste transtorno: Tomar ou não tomar a medicação?

Apesar dos prejuízos apresentados na execução de suas tarefas cotidianas, ainda há muita dúvida a respeito desta questão.

A medicação mais usualmente prescrita pelos médicos é um produto controlado e com tarja preta no Brasil e devido a este fato, além do acesso restrito a ela, pois a receita também é controlada,  o cliente apresenta medo de dependência e de possíveis efeitos colaterais.

Esta dúvida faz sentido e é até muito saudável pois é uma forma de auto-preservação do cliente, que busca saúde com o tratamento e teme ter algum malefício futuro com seu uso contínuo. Esta é uma outra pergunta constantemente feita: terei alguma seqüela depois de alguns anos de uso desta medicação?

É preciso ficar claro que um tratamento medicamentoso é indicado apenas quando necessário, quando existe algum transtorno a ser tratado, uma necessidade neuroquímica. Um especialista não deve prescrever nenhum medicamento, seja ele inofensivo ou não, se não houver indicação terapêutica para tal. Existe uma grande preocupação pública a respeito do abuso de medicamentos para TDAH, e isto é bastante conveniente porque assim novas pesquisas surgirão e a tendência é que substâncias cada vez mais eficazes sejam desenvolvidas para o seu tratamento.

Se uma pessoa procura a terapia por questões existenciais, podemos considerar e até valorizar que ela viva seu processo terapêutico com todo o sentimento de angústia que isto possa lhe causar, para que possa superar seus traumas, aprender a lidar com suas dificuldades, repará-los e amadurecer. No entanto, no caso de um transtorno, de dor e sofrimento psicossomático, a medicação é necessária e não deve ser desvalorizada. Nós terapeutas não podemos “psicologizar” e fechar os olhos para os sintomas, considerar que tudo seja emocional.

O fato é que não existe técnica ou qualquer recurso disponível capaz de orientar para uma escolha da medicação individual adequada ou a dosagem ideal.

Assim, como acontece com outros transtornos, a prescrição medicamentosa para o TDAH pode mudar de pessoa para pessoa, sobretudo se o tratamento é combinado com psicoterapia e outros recursos.

Cada portador tem sua prescrição personalizada e geralmente a dosagem vai sendo ajustada ao longo de um tempo de tratamento, mediante o relato o mais fidedigno possível deste cliente ao seu médico e ao seu terapeuta, para que suas comorbidades sejam identificadas (caso existam), considerando as perdas que tem em seu dia a dia como resultado dos sintomas do TDAH e a intensidade do esforço intelectual que necessita manter em sua rotina diária atual. Entendo que isto cause alguma insegurança na pessoa que necessita da medicação, pois muitas vezes é relatado que se sentem como cobaias.

O tratamento adequado ajuda a desconstruir uma história de traumas e baixa auto-estima.

A medicação oferece o foco sem o risco da dependência química, diferente de outras drogas que alguns portadores de TDAH acabam usando como medicação ao longo do tempo, devido a sua alteração neuroquímica, na tentativa de aliviar seu sofrimento e acabam tornando-se dependentes, mas isto é outra história.

Os clientes precisam relatar em suas consultas médicas todas as mudanças percebidas por eles em sua dinâmica cotidiana durante a administração da medicação, e isto deve ser feito também nas sessões destinadas ao Diagnóstico Diferencial, e contatos periódicos entre os profissionais responsáveis pelo tratamento se faz necessário para facilitar a adequação da dosagem ou se necessário sua alteração.

O trabalho multidisciplinar ajuda muito no resultado final, mas é claro, temos que contar com a disponibilidade dos outros profissionais envolvidos no atendimento para que esta troca efetivamante aconteça.

No geral não tenho experienciado muita resistência neste contato, contudo não posso deixar de registrar que isto às vezes de fato acontece.

Não faço apologia à medicação, sou psicoterapeuta, não posso prescrevê-la e não tenho ganho algum com isto, a não ser o bem estar e qualidade de vida do meu cliente. Apenas não posso deixar de registrar que tenho acompanhado que depois de algum tempo de uso contínuo da medicação, seguindo a prescrição médica adequadamente, estes clientes minimizam seus sintomas, o que interfere diretamente em seu investimento pessoal e em sua interação em seu processo terapêutico, e como resultado, dependendo é claro do transtorno que o acomete, a quantidade da medicação prescrita tende a diminuir com o tempo de administração e de retorno na psicoterapia.

A decisão porém é do cliente (quando nos referimos ao adulto) ou dos pais do cliente (se estamos falando de criança ou adolescente). Ele precisa se sentir seguro em escolher tomar a medicação. E, sobretudo fazer uso dela adequadamente, seguindo rigorosamente a prescrição médica.

Alguns de meus clientes preferem fazer a psicoterapia (onde combino parte subjetiva, reabilitação cognitiva, mudança de hábitos e comportamentos, planejamento, estabelecimento de metas e estratégias), e não tomar a medicação e dependendo do caso, se não existe um comprometimento grande, eu respeito sua decisão sigo com meu trabalho, e em outros casos mais sérios, onde há maior comprometimento, se necessário esclareço sua importância e possíveis conseqüências no caso de opção por não tomar medicação.

Outros clientes experimentam a combinação dos tratamentos medicamentoso e psicoterápico e tem resultados realmente positivos em sua área emocional, cognitivo/comportamental e em suas funções executivas e conseqüentemente em sua auto-estima.

É preciso considerar também as pessoas que já fazem uso da medicação regularmente e questionam sobre interromper ou não durante as férias e nos fim de semana. E mais uma vez repito: Cada caso é um caso.

Assim como medicação e dosagem são personalizadas, tomá-la ou não nestes períodos também. Se o transtorno a ser tratado demanda o uso da medicação prescrita também nestes períodos então não se deve interromper, pois alguns medicamentos precisam de um período de tempo de administração para que façam o efeito, assim se a pessoa parar de tomá-la terá que esperar este tempo ( que varia entre 15 e 21 dias aproximadamente) para que  esta medicação se adapte novamente a seu organismo e faça o devido efeito.

No caso do TDAH é diferente pois o Metilfenidato ( um dos medicamentos utilizados no seu tratamento) tem seu efeito praticamente imediato. Quando se interrompe, assim que a última dose perde seu efeito seus benefícios cessam e o contrário também é verdadeiro, ou seja, quando sua administração é retomada seu efeito é praticamente automático. Isto facilita a opção por não tomá-lo nestes períodos, caso não exista necessidade de execução de tarefas importantes e se o prejuízo social e emocional não for significativo.

Cabe aqui uma frase que bem disse Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor a e delícia de ser o que é”. (Adoro esta frase). 

Em caso de reprodução favor mencionar autor e fonte.

Nazareth Ribeiro
Psicoterapeuta Psicossomaticista Especialista em Clínica e Educação.
Coaching Vocacional e Orientação Profissional.
Coaching TDAH.
Palestrante.

 

 

 

 

2 Comments

  1. Nossa!!!! estou nesse dilema medicar ou não o meu filho?essa matéria vem abrir minha visão pra que eu faça a escolha amis sábia.Obrigada mesmo.

  2. Oi Raimunda, minha secretaria começa no consultorio após as 13:30 horas.
    Telefones: (21) 38756767 / 21782211
    Aguardo seu contato,
    Abraço,
    Nazareth

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